segunda-feira, março 27, 2006

Uma ideia

Técnicas para afastar os chatos ou chatas que se colam atrás de nós nas filas, bichas e afins:
1. Tossir convulsivamente para cima do chato ou chata.
2. Espirrar com uma chuva de gafanhotos, projectados na direcção do chato ou chata.
3. Libertar um gás mal cheiroso e sonoro para que não restem dúvidas quanto à origem do odor perfumado.
4. Perguntar se o chato ao chata nos quer passar à frente, de preferência com a voz e expressão agressivas e os caninos de fora. Corremos o risco de a resposta ser afirmativa, neste caso colamo-nos nós ao chato ou chata que nos acaba de passar à frente na fila, bicha ou afim.

sexta-feira, março 24, 2006

Os 100 mil "fundamentais"



A sub-directora-geral da Saúde revelou recentemente quais os portugueses “fundamentais” para a Nação, que irão receber anti-virais em caso de pandemia da gripe das aves. Por aqui se depreende que os restantes 9.900.000, nos quais eu me incluo, são dispensáveis. Tudo bem, até compreendo que o critério de “fundamental” distinga aqueles que são necessários para manter Portugal a funcionar; mas, por outro lado, penso que todos sabemos como funcionam os critérios de selecção, em particular os dos concursos públicos.
O parecer da funcionária pública – seguramente uma “indispensável” – levanta uma série de dúvidas. Será constitucional? Outra será a do grau de ameaça real, para a qual nós, os dispensáveis não estamos a ser informados. Antes pelo contrário, é-nos dito que está tudo bem, que a galinha da vizinha morre mais que a minha. Sendo que a vizinha está bem longe.
Esqueçam as cenas tipo Titanic, “mulheres e crianças primeiro” e o capitão é o último a sair. Hoje, a tripulação é a primeira a entrar nos salva-vidas.

Vejam as coisas pelo lado positivo: uma pandemia é o que melhor pode acontecer às finanças. Ao eliminar quase 10 milhões de inúteis, velhos que teimam em não bater a bota ou crianças que só dão despesas e trabalho. Com a vantagem adicional de resolver o problemas das pessoas com cancro e seropositivos de uma assentada; isto sem referir outros males maiores, como os Morangos Com Açucar, as claques de futebol, Felgueiras e as lojas chinesas.

Ainda se queixam? Portugal vai ser um país bem melhor para viver. Só é pena já não estarmos cá.

(Baseado num texto de João Paulo Guerra)

quarta-feira, março 22, 2006

O animal que se esquece

Acredito que há amizades que se esquecem. Nesse caso, não são amizades.
Será mesmo assim? O facto de já não fazerem parte do nosso presente, significa que nunca existiram? Será que os amores idos, nunca o foram?

Animal



A amizade é como um animal familiar, um animal vivo e dócil. Um animal cujo olhar te reconforta. Ninguém vê os seus dentes. Mas é um animal que tem uma particularidade curiosa: morde quando está morto.

terça-feira, março 21, 2006

Barco

Margens inertes abrem os seus braços
Um grande barco no silêncio parte.
Altas gaivotas nos ângulos a pique,
Recém-nascidas à luz, perfeita a morte.
Um grande barco parte abandonando
As colunas de um cais ausente e branco.
E o seu rosto busca-se emergindo
Do corpo sem cabeça da cidade.

Um grande barco desligado parte
Esculpindo de frente o vento norte.
Perfeito azul do mar, perfeita a morte
Formas claras e nítidas de espanto

Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, março 20, 2006

No teu quarto



Naquele quarto, pensavam apenas em si mesmos e em conhecer-se por completo, em abrir as suas vidas. Noites semelhantes, rostos cansados, silêncios sedutores, e deixava-a passar os seus dedos pelo ombro; fechava os olhos, sorria de prazer. Abraçados repousavam, adormeciam após doces susurros, emergiam do sonho para aproximar os lábios. E continuava o sonho conjunto. Como não dormir juntos?

Ao amanhecer, ele saia suavemente, tentando não a acordar. Às vezes ela abria os olhos. "Não vás." Ele assegurava que voltaria em breve. Como poderia não voltar?

sexta-feira, março 17, 2006

Loucura?!

Mas afinal o que vem a ser a loucura?...

Um enigma... Por isso mesmo é que às pessoas enigmáticas, incompreensíveis, se dá o nome de loucos...

Que a loucura, no fundo, é como tantas outras, uma questão de maioria. A vida é uma convenção: isto é vermelho, aquilo é branco, unicamente porque se determinou chamar à cor disto vermelho e à cor daquilo branco. A maior parte dos homens adoptou um sistema determinado de convenções:

É a gente de juízo...

Pelo contrário, um número reduzido de indivíduos vê os objectos com outros olhos, chama-lhes outros nomes, pensa de maneira diferente, encara a vida de modo diverso. Como estão em minoria... são doidos...

Mário de Sá-Carneiro em "Loucura"

quarta-feira, março 15, 2006

Outro palco



Tu, que não conheceste aquele tempo, tens o direito de não ter a memória, abriste os olhos quando estava já acabado. Mas foi na tua imaginação onde voltei a nascer, melhor do que fui, limpo da cobardia e da verdade.

terça-feira, março 14, 2006

Dúvidas – parte 1

“Amor, n. Demência temporária que se cura com o casamento, ou afastando o paciente das influências que provocam a enfermidade. Esta doença, tal como a carie e outras, prevalece apenas entre as raças civilizadas que vivem em condições artificiais; as nações bárbaras que respiram ar puro e comem alimentos simples são imunes aos seus ataques. Chega a ser fatal, embora mais para o médico do que para o paciente.”

Dicionário do Diabo

segunda-feira, março 13, 2006

F.


F. era um homem de uns trinta e meia-dúzia de anos, alto, de pele morena e cabelos negros.

Os olhos fundiam-se nas órbitas, como se o olhar tivesse querido esconder-se.