segunda-feira, setembro 12, 2005

5 Dias, 5 Livros I



Horto

homens cegos procuram a visão do amor
onde os dias ergueram esta parede
intransponível

caminham vergados no zumbido dos ventos com os braços erguidos - cantam

a linha do horizonte é uma lâmina
corta os cabelos dos meteoros - corta
as faces dos homens que espreitam para o palco
nocturno das invisíveis cidades

escorre uma linfa prateada para o coração dos cegos
e o sono atormenta-os com os seus sonhos vazios

adormecem sempre
antes que a cinza dos olhos arda
e se disperse

no fundo do muito longe ouve-se
um lamento escuro
quando a alba se levanta de novo no horto
dos incêndios

prosseguem caminho
com a voz atada por uma corda de lírios
os cegos
são o corpo de uma fogo lento - uma sarça
que se acende subitamente por dentro

Al Berto

Este poema é uma metáfora do sentir. Todos somos cegos. Cegos quando não sentimos, cegos quando não seguimos o que sentimos.
Hoje sei que fui cega ontem. Amanhã provavelmente vou descobrir que continuei a ser cega hoje.

sexta-feira, setembro 09, 2005

Baikal



Conforme prometido, aqui está mais uma fotografia do lago baikal. Posso partilhar as 100 ou 200 fotografias que tenho do lago mas nunca vou conseguir transmitir a emoção de navegar numas águas tão mortais (frias), com uma paisagem tão inóspita, onde tudo o que lá cai é misteriosamente reciclado!

Impacto


haine_06 Posted by Picasa

O melhor esconderijo das profundezas é a superfície. Peço cento e dez anos de vida para compreender o mar, sabendo que a vida tem a duração de uma bala. Um disparo, acabo de nascer, espera-me uma trajectoria e um fim (com ou sem destruição). A angústia de escolher um alvo quando o tempo escasseia. Até aqui tudo bem, o pior é o impacto.

Quixote


Salvador Dali

Queria homenagear um visitante muito querido do Sofá que hoje é bebé!
Continuo sem saber qual a cor dos seus olhos, mas já me levou a passear pelas escadas rolantes dos diálogos pensantes, da rua da emenda até à estação nocturna, da exposição de agrafadores até ao lago dos alfaiates...

Parabéns!

quinta-feira, setembro 08, 2005

Louco

Não, não me vou esconder nesta vida de ignorância. Pertenço a onde os anjos morrem, muito antes de aprenderem a voar.

Lembro-me de cem dias de verão.
Sonho com esses castelos nas núvens e relógios que não esperam para dizer as horas; destinos escritos na areia, tocados pelo sol.

Sonho

Sonhei contigo. Encontrei-te na paragem do eléctrico 28. Aquela que fica entre as colinas, sob o olhar do D. João I.
Olhámos um para outro, indecisos, com os olhos a arder de desejo. Subimos os degraus e entrámos no eléctrico, lá dentro os sons da cidades eram abafados pela fricção das rodas nos caris de ferros e pelo burburinho das pessoas que nos apertavam. As nossas respirações corriam numa sinfonia de pensamentos não ditos, com os olhares ainda entrelaçados e os corpos colados.

Permanecemos assim durante muito tempo.

Acordei e estava sozinha no banco lateral de madeira. Já tinha passado a minha paragem, estava agora numa outra cidade, mais fria, mais só. No meu colo um livro desconhecido, na primeira página uma dedicatória assinada por ti.

quarta-feira, setembro 07, 2005

stuart A. staples



Emprestaram-me este álbum.
Fiquei sem palavras!
A voz quente do vocalista dos Tindersticks toca-me a alma como nenhuma outra!
Lembro-me bem do dia em que comprei o primeiro álbum de tindersticks, depois de correr Lisboa inteira (Controverso, Paladium, Valentim de Carvalho – eram outros tempos), lá encontrei a caixinha da bailarina vestida de vermelho numa loja pequena na estação de comboios do terminal. Em Dezembro de 1993.

O lucky dog recordings 03-04 é menos musical que os álbuns de tindersticks, a voz ganha um novo poder e as melodias são mais tristes e introspectivas. É lindo. A banda sonora ideal para as pequenas gotas de água que caem do céu!

Liberdade?

A rapariga do circo caiu do cavalo e agora está paralisada;
a liberdade em prisão preventiva;
um barco de vela rasgada, agora afundado.
Mas eu tenho que ir, então vou. Vou correr o risco de ser livre.
Vou revelar segredos, as mentiras que os padres nos contaram,
desmascarar os falsos heróis, verdadeiras pessoas
neste mundo atento a quem mais alto gritar,
deem-lhes o megafone e nada terão a dizer excepto:
“Curvem-se perante o vosso deus”.
Mas deus não existe, morreu, nunca nasceu.

Baseado na música "The Libertine", Patrick Wolf.

Amor de Verão



Começa assim, com a música de Goldfrapp:

“It starts in my belly
Then up to my heart
Into my mouth I can’t keep it shut
Do you recognize the smell
Is that how you tell
Us apart
I fool myself
To sleep and dream
Nobody’s there
No-one but me
So cool
You’re hardly there
Why can’t this be killing you
Frankenstein would want your mind
Your lovely head”

O filme é uma visão pouco Shakespeareana do amor. É trágico, o amor, mas nem sempre pelas mesmas razões. Gostei dos planos brilhantes (de luz), dos momentos musicais ternurentos, dos olhares cheios de vida e paixão. Faltou qualquer coisa!


Tamsin: So what are you gonna do with your life?
Mona: I'm gonna be a lawyer.
[pause]
Mona: I'm gonna get a job in an abertoire, work really hard, get a boyfriend who's like... a bastard, and churn out all these kids, right, with mental problems. And then i'm gonna wait for the menopause... or cancer.

terça-feira, setembro 06, 2005

Outra casa

Bebo à nossa casa demolida, onde a perda reside solitária.
Tenta perceber: eu não podia segurar-te na mão, nem agarrar-me a nada.
Não consegui encontrar uma razão ou um sinal de que tudo não estaria perdido.
Tentei encontrar uma pista. Esperava encontrá-la enquanto aguentava o fôlego; tentei reencontrar uma casa onde pudesse viver sem quem amava. Como poderia saber que iria encontrar apenas a árvore, sem fruto nem folhas, onde os amantes há muito desaparecidos costumavam ir?

Deixei a minha casa nas núvens e caminhei para a vida seguinte.