terça-feira, setembro 25, 2007

A Forest #2


Trabalhei como de costume de manhã e de tarde. Ao fim do dia abandonei o telemóvel em casa e fui dar um passeio pelos bosques detrás da cidade. Ainda não consegui perceber o que há nesses bosques, o que me atrai. O seu silêncio parece mais profundo que qualquer outro silêncio. Nestes bosques abandonados e incultos há uma curiosa estranheza, e ainda que vá sozinho, tenho a sensação de que seres invisíveis, nem humanos nem inhumanos, andam em meu redor. Algumas vezes, por detrás de uma árvore, parece estar uma sombra que me vê passar. Há uma atmosfera suspensa, como se tudo em meu redor estivesse à espera que acontecesse algo.

quinta-feira, agosto 30, 2007

Blue dress


Morreu de vestido azul ao sol. Um vestido azul estampado com os ecos dos latidos do seu coração morto. Exposta a todas as perdições, uma mulher extraviada. E apesar do frio cinzento nos seus olhos, a sua voz corroi a distância que se abre entre a sede e a mão que procura o copo.

quarta-feira, agosto 22, 2007

Armário #10

Saí do armário, uma revelação. Assumo frontalmente, sem medos, sem deve nem teme, perante tudo e todos, aquilo que sou, com as letras todas: "Sou um bi-metrossexual."

segunda-feira, agosto 20, 2007

Death Proof? Smack my car up!


Os filmes do Quentin Tarantino têm este efeito em mim: surpreendem-me e colocam-me num estado de ansiedade à espera do próximo, viciantes e alucinantes, psicotrópicos em película. Para além de abordagens inovadoras (mesmo quando vai buscar a matéria-prima a territórios extintos), ele tem uma soberba técnica de construir uma história e dar corpo a personagens deliciosamente obscuras.

Todos os actores são fantásticos, incluindo o próprio Tarantino – ele respira a sua própria vida neste (e nos outros) filmes.
A montagem é terrivelmente coerente. A linguagem amarga e pornográfica. O technicolour transforma-se em preto e branco como se alguém se tivesse esquecido de o revelar correctamente e de repente lá vem, a cor outra vez.
A banda sonora? É ouvir.

Tudo coisas más, certo? Errado, tudo muito bom!

quinta-feira, agosto 02, 2007

Creacionismo #2 - Concepção Inteligente?!


Começa neste momento a alastrar-se pela Europa o debate sobre o ensino do evolucionismo, com alguns políticos a defender o neo-creacionismo embrulhado como “concepção inteligente.”
Esta questão provocou inclusivamente algumas ondas na campanha para as eleições presidenciais de 2008. Nos EUA, pois claro. Os candidatos baralharam e tornaram a dar sem explicar as suas razões. Ao fazerem isso, levantaram o tapete sobre uma questão que não apenas separa os cientistas dos evangelistas mas que também divide a opinião pública: uma sondagem recente a 1.000 adultos, 7 funcionários dos correios e 2 whitney houstons, mostrou que 53% dos Americanos acredita que os humanos evoluiram desde há milhões de anos, enquanto 66% acreditam numa criação divina nos últimos 10,000 anos. Estes resultados somam 119%, o que demostra bem a profunda ambivalência deste povo.
Tal confusão acerca da teoria da evolução coloca em perigo a saúde da nação. Na realidade, representa uma ameaça bem pior do que qualquer avião para uma qualquer torre.

terça-feira, julho 17, 2007

Alguém me explique: Criação VS Evolução


Os Americanos não acreditam que os humanos evoluiram, e uma vasta maioria afirma que, mesmo que tenham evoluído, Deus conduziu o processo; apenas 13% dizem que Deus nada teve a ver com isso, e 1,36% perguntou que era esse senhor. Essa imensa maioria nunca teria substituído o ensino do creacionismo pela ensino da evolução nas escolas públicas.

A defesa da evolução concentra-se sobretudo entre os com maior grau de habilitações literária e os que raramente vão à missa ou evitam lá por os pés (abrindo apenas excepções para quatro casamentos e um funeral). 60% dos Americanos que se intitulam de Cristãos Evangélicos são a favor da substituição da evolução pelo creacionismo em toda e qualquer escola, bem como 50% dos que vão semanalmente à missa.
Não que isto me faça muita confusão, vindo de quem vem: os Americanos já demonstraram em diversas ocasiões que são um povo (salvo as habituais excepções) incongruente, com horizontes bastante limitados, terra de liberdade muito pouco livre. O que me transtorna é assistir a uma série de manifestações na Europa no sentido de importar mais um belo aspecto do “american way of life”, com batatas e cola média. Deviamos copiar apenas os bons exemplos, como a música, como os Interpol, She Wants Revenge, LCD Soundsystem, Strokes, Richard Cheese and so on...
A esta “cruzada moral” apenas uma resposta possível: “Vão-se todos fecundar, north american scum!” Sem preservativo,não é?

sexta-feira, julho 06, 2007

Ricardo II


“Um trono de reis, uma terra de majestade, a cadeira de Marte, um outro Paraíso, uma fortaleza criada pela Natureza para ela própria.
Uma feliz linhagem de homens nesse pequeno mundo, nesse precioso rochedo plantado no mar de prata. Essa terra, esse recanto, a Inglaterra.”
(Fernando M., adaptação livre a partir de "Ricardo II")
Apenas têm até Domingo para verem esta fantástica encenação que recomendo vivamente. Fui vê-la ontem e adorei. De lamentar o comportamento de algumas pessoas que lá devem ter ido ao engano, provavelmente a pensar que iriam ao Parque Mayer ou a qualquer sessão de cinema americano. Felizmente, não havia pipoca!

Ricardo II
Sala Garrett
13 de Jun a 08 de Jul 2007

3ª a SÁB. 21H00 DOM. 16H30

terça-feira, julho 03, 2007

Blame Canada!


Ontem fui ver a versão chinesa do Hamlet: "Inimigos do Império". Gostei. Um único senão: a banda sonora, delicodoce e com um tema final que parecia cantado pela prima da Celine em Beijing. Qual Celine?
Celine Dion, uma das maiores vergonhas do Canada ainda antes da Avril Lavigne e os Nickelback terem aparecido, disse a uma revista francesa que uma vez terminado o seu contrato com o Caesar Palace, está a planear ter uma criança através da fertilização in vitro. O que não admira, tendo em conta que os seus últimos 10 namorados ficaram com danos irreversíveis nos timpanos quando a senhora atingiu os seus últimos 10 orgasmos. Celine insiste que o tempo começa a escassear uma vez que se apróxima de uma idade em que se pode transformar em pó com uma rabanada de vento mais forte (eu iria jurar que ela tinha chegado a cantar para o George Washington e que até tinha contribuindo para que os ingleses tivessem regressado ao seu país natal).

Bem, com os 21 meses de aviso e conhecida a informação específica de quando, onde e como ela irá dar à luz, parece-me obvio que é uma jogada brilhante e já estará a preparar um album de canções (?) acerca do pequeno estafermo; tudo com o patrocínio da Cup-o-Soup (Agora com 30% extra de Feto!). Pobre Canada, que fizesteis para merecer semelhante castigo?
Mal por mal, prefiro o Hélio.

terça-feira, junho 26, 2007

Obscuro (inspirado em Blanchot)

Viu-o chegar sem surpresa, este ser inevitável de quem ela tentou escapar em vão, mas que iria reencontrar todos os dias. Todas as vezes, ele vinha direito a ela, seguindo a um passo inflexível um caminho estendido a direito por cima do mar, das florestas, até do céu.

Todas as vezes, quando o mundo se esvaziava de tudo menos do sol e este movimento parava ao seu lado, envolvia no seu silêncio a imobilidade, levada por esta profunda insensibilidade, sentindo toda a calma do universo condensar-se nela através dele, não se atrevendo a fazer um movimento ou a ter um pensamento, vendo-se a arder, morrendo, os seus olhos, a sua face em chamas, a boca meio aberta libertando um último folego, tornando-se denso, mais silencioso que o silêncio. Um momento desumano e vergonhoso que começava a cada novo dia, e do qual ela não se conseguia escapar.

terça-feira, junho 12, 2007

Santos Populares? Santo Tirso!



Vamos lá aos Santos Populares, pelo menos para uma sardinha, já que aqui estamos. Tudo bem, eu já estava à espera de muita gente de muitos tipos. Mas já não me recordava de ser assim tão chunga, forrado a vomitado e copos de plástico pisados. Desculpe, quanto é que disse que custava uma sardinha? Não, era mesmo só uma e não estava a confundi-la com um cherne.

É esta a ideia de uma festa? Era suposto eu divertir-me? Não, não vou querer uma merda de sardinha ex-congelada com um copo de vinho martelado. Andei ali perdido por uma hora, enquanto as pessoas se atropelava de um lado para o outro, tipo carruagem de comboio algures na Caxemira, já com a bilis na glote. Tinha que sair dali o mais rápido possível, aproveitei o espaço aberto por uma ambulância (concerteza uma sardinha indisposta), evitei o Metro e segui a pé até uma paragem de autocarro relativamente deserta.

Enquanto adormecia, pensava que aquela não era a minha festa, mas sim da “fauna” com que me cruzava no “Feira Nova” da Belavista, algures entre a charcutaria e o corredor dos vinhos de mesa. Esta cidade tem outras dentro dela.