Quarta-feira, Novembro 11, 2009
Segunda-feira, Outubro 12, 2009
Quarta-feira, Setembro 02, 2009
Uma das tardes

O meu avô apontou-me o sol vermelho a ponto de desaparecer. Disse-me que este solo é horroroso, mas que o céu é dos mais bonitos do mundo, tão bonito como as pirâmides do Egipto ou o arranha-céus do King Kong. É a oitava maravilha do mundo mundial. Estava tudo tão quieto como num filme que deixaram na TV em que um avô e um miúdo eram os últimos a sair do cemitério depois do enterro de um que era negro. Mas isto era muito melhor porque no filme da minha vida não havia nenhum morto de momento, tinha-me prometido o meu avô. Não vais acreditar, mas foi uma das tardes mais felizes da minha existência no planeta Terra.
Quarta-feira, Agosto 05, 2009
Os Limites do Controlo

Suspeito que o Jim Jarmusch gosta de fazer as pessoas pensar. Nada contra o "Blockbosta de Verão 2/3/4" etc.; comer pipocas (de boca fechada, caso seja possível), finais felizes, comédias românticas e porcos que falam (é bem capaz de ser um pleonasmo). Vejo um filme do Jarmusch, e interrogo-me porque é que aquele negro a fumar numa paragem de autocarro de Memphis fala um Japonês perfeito, o que está por detrás de uma conversa o Tom Waits e o Iggy Pop num diner, e o que leva um assassino a fazer ver a uma rapariga a importância da leitura. Mystery Train, Coffee and Cigarettes, Ghost Dog, e todos os outros filmes dele podem não ter o molho de natas, mas tem definitivamente a carne que se mastiga e o sabor que se sente muito depois de a engolir. A sua obra é uma reflexão sobre parcelas da cultura Americana desvalorizadas e frequentente ignoradas.
Neste último The Limits of Control, há um Lone Man (de Lone Ranger, logo americano?) que não fala espanhol, francês ou japonês, há uma Europa aqui tão perto, caixas de fósforos e papéis engolidos, um caminho, uma busca, um final sem molho de natas nem cogumelos enlatados.
Sexta-feira, Julho 31, 2009
Um só homem

Procuro na sombra. Ali, nos confins da mão que ergo como uma asa. Aqui termina todo o meu ser, a carne acaba e começam os astros, a luz das estrelas. Aqui começa o mar. O único junto a quem habita, desde sempre, a eternidade errante da terra. Aqui começa o mar, aqui termino.
Por debaixo de mim os enterrados, navegando por outro mar sombrio, o da morte, onde um vento os empurra até ao confim. Deus nada pergunta, porque Deus em nada existe. A terra cala, porque nada espera. Um só homem, sob os planetas, a sua morte inútil.
Quarta-feira, Julho 29, 2009
Esta noite lúcida

Hoje venho falar-te, como a mim mesmo. Como me falo quando estou a sós, magoado de dias tristes que nos contemplam, raízes onde cresce, matinal e obscura a primeira carícia da terra. Venho falar-te como a mim mesmo, esta noite lúcida enquanto a lua lança sobre os mundos uma luz calcária e fere o horizonte no seu duro, lento e solitário osso.
Segunda-feira, Julho 27, 2009
Segunda-feira, Julho 20, 2009
Tempo #6

Enfim, retira-se como uma venda. O tempo, esta grande mentira, o tempo que mata, o tempo que até hoje nos matava em silêncio. O tempo recuperou o seu ritmo sanguinário, o seu galope. O tempo, esta grande mentira.
O tempo recuperou o seu ritmo sanguinário, já não sabe mentir, corre extenuado. Nunca poderá entregar a mensagem que outros mutilados e outros mortos transmitiram.
Sexta-feira, Julho 17, 2009
O minuto seguinte

Edward Hopper - Hotel Room
Soube que tinha acontecido algo irreparável no momento em que um homem me abriu a porta desse quarto de hotel e a vi sentada ao fundo, olhando pela janela de um modo estranho. Quando fui não se passava nada de estranho, ou pelo menos nada fora do habitual, nada que anunciasse o que iria suceder durante a minha ausência. Esta vez, como todas, ela prognosticou que algo correria mal e eu, como sempre, passei ao lado do seu prognóstico; saí da cidade numa quarta-feira, deixei-a pintando de verde as paredes do apartamento e no domingo seguinte, quando regressei, encontrei-a num hotel, a norte da cidade, transformada num ser aterrado e aterrador. Não conseguir saber o que lhe aconteceu durante a minha ausência e se lhe pergunto manda-me à merda; a mulher perdeu-se dentro da sua própria cabeça, faz catorze dias que a procuro; é como se ela habitasse uma realidade paralela, bem perto mas intransponível, como se falasse uma língua estrangeira. A transtornada razão de quem quer regressar a casa e não o consegue, no minuto seguinte nem sequer se lembra de ter tido casa.
Quarta-feira, Julho 15, 2009
Pelos ares

Enquanto informava os seus amigos do que tinha acontecido, enquanto se vestia tão rápido quanto podia, enquanto bebia um café que estava a ferver sem ter mexido bem o açúcar depositado no fundo da chávena, enquanto pisava o acelerador do seu carro para subir a rampa do parque subterrâneo, ele tratava de todos os cadáveres que povoavam a sua memória junto com recordações de todos os acidentados que tinham conseguido sobreviver perante os seus olhos. Agarrava-se a cada cama de hospital, a cada exercício de recuperação, a cada lágrima furtiva, a cada sorriso consciente, a cada jarra de flores, como ao único trampolim capaz de mandar pelos ares outras tantas imagens de corpos sem pernas, sem braços, sem olhos, sem cabeça, sem um corpo de verdade, todos os despojos privados de vida cuja morte tinha visto certificar ou certificado ele mesmo. Nunca tinha estado submetido a uma pressão semelhante, nunca se tinha sentido tão fora de si, nunca recordava ter tido tanto medo como então. Precisava de gritar, insultar as nuvens, arranhar-se na cara, mas estava quieto, e conduzia com todo o cuidado que era capaz à velocidade máxima do carro, e com toda a esperança que podia improvisar.


